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Domínios do MEEM, do MoCA e do teste do relógio

O que cada domínio mede, quais áreas do encéfalo estão envolvidas, o erro mais típico e como a combinação de falhas orienta a hipótese sindrômica e etiológica.

Como ler os subescores

  1. Olhe o total apenas como triagem: o padrão está nos domínios, não na soma.
  2. Compare registro com evocação tardia para separar atenção de memória.
  3. Veja se a evocação melhora com pista: isso separa armazenamento de recuperação.
  4. Confronte com escolaridade, visão, audição, humor, sono e medicamentos antes de concluir.

MEEM — 30 pontos em 7 domínios

Rastreio mais usado no Brasil; pontos de corte variam com a escolaridade.

  • Orientação temporal

    5 pontos

    Noção de data, dia da semana, mês, ano e período do dia.

    Áreas envolvidas: Temporal medial, diencéfalo e redes parietais mediais.

    Erro típico: Erra ano e mês nas demências em curso e no delirium; erra só o dia em quadros leves.

  • Orientação espacial

    5 pontos

    Reconhecer local, andar, cidade, estado e país.

    Áreas envolvidas: Parietal posterior e temporal medial.

    Erro típico: Perder o local específico antes da cidade ou do país.

  • Memória imediata (registro)

    3 pontos

    Atenção e entrada da informação: repetir três palavras.

    Áreas envolvidas: Redes de atenção frontoparietais e córtex auditivo associativo.

    Erro típico: Falha aqui indica desatenção, surdez ou delirium — não perda de memória.

  • Atenção e cálculo

    5 pontos

    Memória operacional e sequenciamento (subtrair 7 ou soletrar de trás para frente).

    Áreas envolvidas: Pré-frontal dorsolateral e parietal.

    Erro típico: Muito sensível à escolaridade e à ansiedade; perde-se na sequência sem completar.

  • Evocação tardia

    3 pontos

    Recuperação das três palavras após interferência.

    Áreas envolvidas: Hipocampo e temporal medial, com apoio pré-frontal.

    Erro típico: Registro 3/3 e evocação 0–1/3 é o achado mais sugestivo de perfil amnéstico.

  • Linguagem

    8 pontos

    Nomear, repetir frase, comando de três etapas, ler e escrever.

    Áreas envolvidas: Temporal e frontal do hemisfério esquerdo (perisilviano).

    Erro típico: Trocas de palavra, circunlóquios e frase escrita sem sentido apontam para linguagem.

  • Habilidade visuoconstrutiva

    1 ponto

    Copiar dois pentágonos entrelaçados.

    Áreas envolvidas: Parietal direito e conexões frontoparietais.

    Erro típico: Ângulos abertos, figuras separadas ou sobrepostas.

MoCA — 30 pontos em 7 domínios

Mais sensível ao comprometimento cognitivo leve; soma 1 ponto para até 12 anos de estudo.

  • Visuoespacial e executivo

    5 pontos

    Trilhas alternadas, cópia do cubo e desenho do relógio.

    Áreas envolvidas: Pré-frontal dorsolateral e parietal (sobretudo direito).

    Erro típico: Perde a alternância número-letra e desorganiza o cubo e o relógio.

  • Nomeação

    3 pontos

    Nomear leão, rinoceronte e camelo.

    Áreas envolvidas: Temporal anterolateral esquerdo (memória semântica).

    Erro típico: Responde por categoria (“um bicho”) — típico de perda semântica.

  • Atenção

    6 pontos

    Dígitos direto e inverso, vigilância à letra A e subtrações de 7.

    Áreas envolvidas: Redes frontoparietais de atenção.

    Erro típico: Erra o inverso e a vigilância no delirium e nos quadros de sonolência.

  • Linguagem

    3 pontos

    Repetir duas frases longas e fluência fonêmica (letra F).

    Áreas envolvidas: Frontal inferior esquerdo e temporal esquerdo.

    Erro típico: Repetição truncada e menos de 11 palavras em 1 minuto.

  • Abstração

    2 pontos

    Semelhança entre pares (trem/bicicleta, régua/relógio).

    Áreas envolvidas: Pré-frontal (conceituação).

    Erro típico: Resposta concreta (“os dois andam”) em vez da categoria.

  • Evocação tardia

    5 pontos

    Recordar cinco palavras sem pista.

    Áreas envolvidas: Hipocampo e temporal medial.

    Erro típico: Se melhora muito com pista ou reconhecimento, sugere falha de recuperação (perfil mais frontal/subcortical).

  • Orientação

    6 pontos

    Data completa, local e cidade.

    Áreas envolvidas: Temporal medial e parietal medial.

    Erro típico: Costuma ser o último domínio a cair no comprometimento leve.

Teste do desenho do relógio — o que cada parte revela

Avalia planejamento, organização espacial e compreensão do comando em poucos minutos.

  • Círculo e organização do espaço

    Estrutura

    Planejar o desenho e usar o espaço do papel.

    Áreas envolvidas: Parietal direito e frontal.

    Erro típico: Círculo aberto ou desenho apertado num canto.

  • Números de 1 a 12

    Sequência

    Sequenciamento e distribuição espacial.

    Áreas envolvidas: Parietal e pré-frontal.

    Erro típico: Números repetidos, fora do círculo ou concentrados de um lado (atenção à negligência esquerda).

  • Ponteiros em 11h10

    Comando

    Compreensão do comando, abstração e controle inibitório.

    Áreas envolvidas: Pré-frontal e conexões frontoparietais.

    Erro típico: “Puxar” o ponteiro para o 10 (ancoragem no estímulo) ou ponteiros do mesmo tamanho.

Padrões de déficit e o que sugerem

Cada bloco reúne a assinatura nos subescores, a hipótese que ela levanta e o próximo passo prático.

  • Perfil amnéstico (armazenamento)

    Assinatura: Registro preservado com evocação tardia muito baixa, que não melhora com pista; orientação temporal começando a falhar.

    Hipótese: Sugere comprometimento hipocampal — hipótese sindrômica amnéstica, compatível com doença de Alzheimer quando há declínio insidioso e progressivo.

    Próximo passo: Confirmar história com informante, aplicar MoCA, avaliar funcionalidade (Pfeffer/Lawton) e investigar causas reversíveis.

    Áreas em destaque: Hipocampo e temporal medial, Lobo temporal. Esquema didático, sem proporção anatômica exata.
  • Perfil executivo e de atenção

    Assinatura: Atenção/cálculo e trilhas alteradas, abstração concreta, fluência baixa, relógio desorganizado; evocação melhora com pista.

    Hipótese: Sugere disfunção frontal-subcortical — hipótese vascular ou mista, também vista em parkinsonismos e no uso de sedativos.

    Próximo passo: Checar fatores de risco vascular, marcha, medicamentos com carga anticolinérgica e neuroimagem quando indicada.

    Áreas em destaque: Lobo frontal, Áreas subcorticais e substância branca. Esquema didático, sem proporção anatômica exata.
  • Perfil visuoespacial

    Assinatura: Pentágonos e cubo malfeitos, relógio muito alterado com memória relativamente melhor; podem haver flutuações e alucinações visuais.

    Hipótese: Sugere envolvimento parieto-occipital — levanta demência com corpos de Lewy ou variante posterior, quando há flutuação, sono REM agitado ou parkinsonismo.

    Próximo passo: Perguntar sobre alucinações, sonhos agitados e rigidez; revisar visão e evitar antipsicóticos típicos.

    Áreas em destaque: Lobo parietal, Lobo occipital. Esquema didático, sem proporção anatômica exata.
  • Perfil de linguagem e semântica

    Assinatura: Nomeação e repetição alteradas, fala com circunlóquios, fluência semântica muito abaixo da fonêmica.

    Hipótese: Sugere rede temporal anterolateral esquerda — hipótese de afasia progressiva primária ou variante semântica.

    Próximo passo: Avaliação fonoaudiológica e neuropsicológica de linguagem; investigar início e evolução da fala.

    Áreas em destaque: Lobo temporal, Lobo frontal. Esquema didático, sem proporção anatômica exata.
  • Atenção flutuante de início agudo

    Assinatura: Falha já no registro e na vigilância, desorientação temporal marcada, desempenho que muda ao longo do dia.

    Hipótese: Sugere delirium antes de qualquer hipótese de demência — é condição aguda e potencialmente reversível.

    Próximo passo: Procurar infecção, dor, retenção urinária, constipação, desidratação e medicamentos novos; reavaliar depois de tratada a causa.

    Áreas em destaque: Lobo frontal, Áreas subcorticais e substância branca, Lobo temporal. Esquema didático, sem proporção anatômica exata.
  • Queixa maior que o desempenho

    Assinatura: Respostas “não sei”, esforço reduzido, desempenho melhor com estímulo; humor rebaixado e sono alterado.

    Hipótese: Sugere componente depressivo (pseudodemência) somando-se ao quadro cognitivo.

    Próximo passo: Aplicar GDS-15 ou PHQ-9, tratar o humor e repetir o rastreio cognitivo depois.

    Áreas em destaque: Lobo frontal, Áreas subcorticais e substância branca. Esquema didático, sem proporção anatômica exata.

Limites deste guia

MEEM, MoCA e desenho do relógio são instrumentos de rastreio. O padrão de erros aponta hipóteses, não diagnóstico nem localização de lesão. A conclusão exige história com informante, exame clínico e neurológico, avaliação funcional, exames laboratoriais e, quando indicado, neuroimagem.

Perguntas frequentes

Registro e evocação são a mesma coisa no MEEM?
Não. O registro mede atenção e entrada da informação; a evocação tardia mede recuperação depois da interferência. Registro bom com evocação ruim é o achado mais sugestivo de perfil amnéstico.
Qual a diferença entre falha de armazenamento e de recuperação?
Se a pessoa recorda com pista ou reconhece a palavra numa lista, a falha é de recuperação, mais ligada a circuitos frontais e subcorticais. Se nem com pista recorda, a falha é de armazenamento, mais ligada ao hipocampo.
O padrão de erros fecha diagnóstico?
Não. Os instrumentos são de rastreio: o padrão orienta hipóteses sindrômicas e etiológicas, que precisam de história com informante, exame clínico e neurológico, avaliação funcional, exames laboratoriais e, quando indicado, neuroimagem.
Escolaridade muda a leitura dos domínios?
Sim. Atenção/cálculo, escrita, abstração e fluência são os domínios mais afetados por baixa escolaridade. O MoCA soma 1 ponto para quem estudou 12 anos ou menos e o MEEM usa pontos de corte por escolaridade.
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